Em meados dos anos oitenta, beirando meus quatorze anos, por imposição do meu velho, encarei meu primeiro emprego como office-boy de uma instituição de crédito imobiliário ligada a um grande banco comercial. (Era médio, mas o considerava gigante).

          Lembro até hoje do cuidado com que minha mãe passou minha roupa, (uma camisa social e uma calça de tergal), e a alinhou sobre minha cama, ao lado de um sapato preto Vulcabrás 752 (muito “chique” para a época). Tudo isso para meu primeiro dia de trabalho.

           Eu viria a trabalhar em Cerqueira César (SP), mas peguei um ônibus fretado pelo banco até Alphaville (45 kms de casa), no seu centro administrativo, onde trabalhavam aproximadamente três mil e quinhentas pessoas. Lá eu participaria do que se chamava de “processo de integração”.

          Tal processo consistia em apresentar aos iniciantes, independente das funções assumidas, toda a estrutura do banco, bem como sua história, crenças, valores, mas principalmente missão e objetivos, ou seja, o que ele, enquanto instituição empresarial, queria de nós. Ficamos o dia inteiro ouvindo palestras de vários gestores das mais diversas áreas, bem como das profissionais (grande parte psicólogas) da área de Recursos Humanos que, acreditem, já era considerada “estratégica” naquela época.

          Saí de lá maravilhado com tamanha “perfeição”.

          Mas esse ainda não era meu primeiro dia de trabalho, era somente a tal “integração”.

          No dia seguinte fui apresentado ao meu chefe, que dentre algumas tarefas sérias, me mandou ir a pé várias vezes em andares distintos (num prédio de quatorze pavimentos) retirar a “alça da bolsa de valores” no administrativo, pegar o “carbono pautado” no financeiro ou pedir a “máquina de tirar diferença” na contabilidade.

          Menino ingênuo que eu era (mundo desconhecido), fazia tudo com muita boa vontade, mesmo sob os sorrisos irônicos das pessoas abordadas.

          Devo ter caminhado quilômetros os dois primeiros dias de trabalho e graças a pena que o chefe teve de mim, bem como os alertas dos colegas, minhas andanças passaram a ser 100% sérias.

          Conforme os anos foram passando, minha carreira foi evoluindo, e ao encerrá-la naquela instituição, tirei algumas conclusões, e uma delas gostaria de compartilhar com vocês, leitores.

          Acredito que a conclusão principal foi ter “enxergado” que a maior característica daquele banco era sua gestão “paternalista”.

          Tínhamos assistência médica gratuita, colônia de férias em cidades paradisíacas, remédios subsidiados, bolsas de estudos em faculdade, cursos específicos gratuitos, ônibus fretado na porta de casa, refeitório com nutricionistas e chefs conceituados, além de centros de lazer, convênios com bibliotecas e muito mais. Confesso que a contrapartida (metas de produção) era proporcional aos benefícios.

          Ora, Rogério. O que há de ruim nisso? É o emprego dos sonhos de qualquer pessoa.

          Sim. Concordo. Mas somente enquanto se está lá.

          Tente empreender depois de anos e anos de “mimos institucionalizados”.

          Vou ter de fazer o café? Lavar o banheiro? Recolher a DARF? Ir ao correio? Ir ao banco depositar e retirar cheques? Recrutar pessoas? Recolher o lixo? Lavar as xícaras dos cafés? Comprar material de escritório? Fazer backup do sistema? Atender clientes? Atender contador? Atender fornecedores? Resolver problemas? Arriscar meu patrimônio? Gerar lucros?

          Em nenhum treinamento do banco fui “ensinado” a lidar com essas coisas, já que meu único foco era vender os produtos bancários atingindo as metas de produção (tarefa árdua, mas única).

          Aprendi posteriormente (a um preço muito alto) que empreender era outra coisa.

          Toda essa “ilustração” para abordar um assunto que considero importante para a perpetuação das instituições (de crédito ou não), dada a grande quantidade de empreendedores pleiteando ou ostentando os tais selos de “melhores empresas para trabalhar”.

          Não considero tal iniciativa prejudicial, mas entendo que deve ser tomada pelos motivos certos, e não para cumprir tabela de empresa politicamente correta, ostentar aparência de “empreendedor bacaninha”, ou simplesmente chancelar sua gestão paternalista para com os colaboradores.

          Entendam que se trata de adequação cultural profunda e não somente uma estratégia administrativa na gestão de pessoas.

          Tal adequação deve contemplar, antes de qualquer coisa;

  1. Responsabilidade compartilhada. (O que acontece, de bom ou ruim ao empreendedor, acontece com todos).
  2. Metas de produção sempre ascendentes.
  3. Ambiente de trabalho saudável (o que não representa necessariamente “tapinha nas costas” entre líderes e liderados). Extinguindo-se as fofocas já é um grande avanço.
  4. Planos de carreira, recrutamento e promoções focados exclusivamente em meritocracia.
  5. Disseminação indiscriminada do conhecimento. Todos sabem fazer tudo em qualquer área. Estímulo aos estudos, mas não com subsídios. Não se “terceiriza” o investimento na própria carreira. O profissional tem que saber quanto custa para ter liberdade de “precificar” seu trabalho depois.
  6. Comunicações abertas.
  7. Ausência absoluta de “egos inflados”.
  8. Ausência absoluta de privilégios “familiares”. O senso de justiça e meritocracia deve prevalecer, mesmo em empresas de origem familiar.
  9. Feedbacks entre líderes e liderados com total ausência de hipocrisia.
  10. Retenção de talentos espontâneo, nunca artificial. Quer ir embora, vá.
  11. Penalizações claras quanto a ineficiência, falta de compromisso ou desempenho geral.
  12. Total distinção na relação empresa / profissional. Não é responsabilidade da empresa a evolução profissional do colaborador. Cada um é dono da sua própria carreira. Isso é lição de berço, e não empresarial.

Em resumo, trata-se de a empresa exercer seu papel fundamental para com a sociedade, seus colaboradores e sócios; gerar riqueza sem detrimento das relações pessoais, ou seja, subir sem se utilizar de “escadas humanas”. Para tanto, qualquer paternalismo é dispensável, pois devemos cultivar e estimular o empreendedorismo e não o “empreguismo”.

Se amanhã o profissional quiser ir embora, que vá para abrir seu negócio e não para a concorrência. Isso é pensar no seu futuro, de verdade, sem hipocrisias do tipo; “Aqui somos todos uma grande família”.

Por outro lado, se qualquer um dos seus colaboradores “sofrer” ao lembrar que amanhã é segunda-feira, o tal “selinho de grande lugar para trabalhar” só servirá mesmo de ornamento, nada mais.

Boa sorte…

Rogério Castelo Branco

Rogério Castelo Branco

28 anos de carreira em gestão de recebíveis.

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